Eu envelheci mil anos, e propriamente, não contive o resultado. Não sentia vontade, não via motivos, na verdade, eu estava ocupada em observar... Ver como se movia, como respirava e como me afetava. Subir em meus braços e escorregar até os dedos... Era pecaminoso pensar em interferir.
Então, me mantinha parada.
Eu tinha folhas decoradas; em turnos de mormaço, eu as ouvia sorrir para mim. Os meus desejos eram fracos, nunca consegui devolver aquele gesto. Mas eu estava sempre pronta para espiar, e vê-las chorar por que nunca as usava. Nunca as tocava.
Eu não tinha coragem nem apetite.
Por que tudo que eu escrevia era deplorável. Tudo que eu fazia era condenável. Como poderia sujá-las? Esperteza e maldade são atributos de pessoas que não sorriem; daquelas que não sentem vontade, não vêem motivos, das que estão ocupadas em observar. Foi o que a velhice me ensinou.
Folhas decoradas.
Eu violentei papéis amassados e bolorentos.
Mas eu sempre as desejei; sempre quis...
Minhas pupilas de velcro e perfume barato. Com a fumaça dos ossos velhos, dos braços velhos, do peito velho. Guardei a pureza delas numa caixa de sapatos.
Os seus estigmas suplicam?
A maior perversidade era abandoná-las. É a razão, por que tudo que eu escrevia era deplorável. Tudo que eu fazia era condenável.
E asqueroso.
Aos sentidos pobres. Àquele analfabetismo funcional...
Aprendi muito durante esse tempo. Mudanças e solavancos, mas tudo continua como eu me lembrava. Intocado. Paralisado.
A maior maldade era não retribuir aqueles sorrisos e prosseguir até fazê-los parar.
Até nunca mais escutá-los.
Às minhas sujas senhoras, eu destino a força e o ranger horrível de cada palavra por mim rabiscada; cada coisa por mim profanada. Cada frase que eu sutilmente assassinei com o desprazer. A vocês...
Por que elas sempre me ouviram em silêncio. E foram a mesma coisa desde o início.
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